Sandawe – L’Éditeur, C’est Vous!

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O crowd funding chegou à banda desenhada no final do ano passado, através desta editora belga, onde qualquer utilizador pode investir na edição de um ou vários álbuns. E apenas com alguns meses de vida online, a Sandawe conseguiu reunir investidores suficientes à volta de um dos projectos, Il Pennello de Serge Perrotin e Jean-Marc Allais, preparando-se agora para o editar em forma de romance gráfico.

O modelo adoptado é o mesmo da música e outro tipo de projectos: os autores e a Sandawe estabelecem um patamar financeiro para avançar com a edição, os utilizadores escolhem os projectos que mais gostam ou acreditam, entrando com um mínimo de 10 Euros, a partir daí passam a investidores e quando o total é atingido, o livro é editado. Caso contrário, o dinheiro será reembolsado, ou se o utilizador preferir, transitará para outros projectos. O contrato de edição, entre autor e editor, tirando algumas particularidades próprias do meio, é como qualquer outro, quanto aos lucros da edição, são divididos entre a Sandawe e os investidores [que aqui são tratados como édinautes, edinautas, conjugação entre editor e internauta]. O patamar para cada livro ronda os 50 mil euros, destes 15 mil vão para a produção e pagamentos directos à editora e autores.

O crowd funding não anda muito longe da edição de autor participada por amigos e familiares, só que aqui ampliada a um número ilimitado de potenciais interessados em investir/ajudar. Ou seja, é natural que um autor que pretenda editar uma obra, muitas vezes recorra a amigos e familiares para o ajudarem a cobrir gastos de produção. O que resulta quase sempre num investimento sem retorno. Aqui essa possibilidade é reduzida, além disso, todo o trabalho de promoção e distribuição, calcanhar de Aquiles de qualquer autor, está assegurado. O mercado de BD francófono, ainda que a própria língua tenha perdido importância internacional nas últimas décadas, continua a ser um dos maiores e mais rentáveis: no ano passado as vendas cresceram 0,3%, com 40 milhões de livros vendidos na França Metropolitana [o país tem 4 regiões ultramarinas] e um volume de negócios que ultrapassou os 400 milhões de Euros. Neste contexto, este tipo de edição, ainda que dentro de um mercado dominado por gigantes, é capaz de funcionar.

Criada por Patrick Pinchart, um dos fundadores do ActuaBD.com, antigo chefe de redacção da Spirou e responsável pelo departamento multimédia da Dupuis, Lionel Frankfort, gestor, e Dimitri Perraudin, informático, a Sandawe, no sentido de reforçar a promoção e motivar os investidores, convida autores reconhecidos, jornalistas especializados e livreiros a avaliarem os projectos, darem opinião e apoiarem este ou aquele em particular. E há de tudo um pouco: westerns, humor e aventura. Com honestidade: o desenho e conteúdo das propostas não escapam muito ao tradicional, nem surpreendem, alguns são até sofríveis. Mas o site é recente, por isso a tendência será crescer, em quantidade, e variar, em estilo.

E em Portugal, funcionaria? A ideia é boa, mas o mercado contido e o consumidor conservador. Quer isto dizer que, entre custos e vendas, por exemplo, de um álbum a cores, seria improvável que os investidores obtivessem retorno, pelo menos a médio prazo, o que implica risco. A menos, claro, que este modelo fosse adoptado à edição de pequena e média tiragem, a pensar num nicho de público. Aí sim, talvez resultasse. Mas a questão que se coloca a seguir é: se o Sandawe, ou qualquer outro que entretanto apareça, está aberta a todos, o que impede um autor português de colocar lá um projecto? Tirando tradução da sinopse e texto de apresentação, a resposta é muito simples: nada.

   

   



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